Moradores de rua não aceitam ir para abrigos sem seus cachorros: ‘Não vou abandonar’

“Não vou abandonar”, dizem sem-teto, que não aceitam ir para abrigos sem os seus cachorros.

O inverno ainda nem chegou, mas o frio já se fez sentir em diversas regiões brasileiras, derrubando as temperaturas não apenas no Sul e no Sudeste, mas também no Centro-Oeste e mesmo em alguns locais em plena região Norte. Mesmo assim, alguns moradores de rua se recusam a ir para abrigos. O motivo é que eles não querem abandonar os seus cães.

Reportagem veiculada pelo portal UOL confirmou a recusa dos moradores na capital paulistana em deixar os cachorros sem um local que ofereça um mínimo de proteção, segurança e aconchego.

Na segunda semana de maio de 2022, quando, nas madrugadas, os termômetros registraram temperaturas abaixo dos 8°C (com sensação térmica próxima a 0°C), muitos sem-teto preferiram ficar sem abrigo a ter de deixar os seus cachorros de estimação sozinhos, ao relento.

Moradores de rua não aceitam ir para abrigos sem seus cachorros: 'Não vou abandonar'

A recusa

A situação em São Paulo também pode ser verificada em diversas cidades brasileiras – mesmo em algumas nas quais o frio é um visitante indesejado, especialmente para os desabrigados. No Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, além de vários municípios do interior, a posição dos moradores de rua é a mesma: “Não vou abandonar”.

De acordo com a Secretaria de Desenvolvimento Social paulistana, a população em situação de rua atingiu, no final de 2021, um total de mais de 32 mil pessoas, um aumento de 30% em relação ao verificado antes da pandemia de Covid-19.

O número pode ser bem maior, considerando a dificuldade em recensear os moradores de rua. Além disso, muitos paulistanos passam apenas parte do tempo sem um teto. Os períodos podem se estender por algumas horas a dias inteiros.

Não existem estimativas oficiais sobre o total de cães e gatos abandonados na capital paulista, mas pelo menos da metade da população sem-teto convive com um cachorro ou gato. Eles vivem com os tutores em barracas, em acampamentos improvisados embaixo de marquises e viadutos, sem nenhum conforto, privacidade ou segurança.

Moradores de rua não aceitam ir para abrigos sem seus cachorros: 'Não vou abandonar'

São Paulo é uma cidade hostil em relação aos cidadãos miseráveis. Diversos parques são cercados com grades altas, bancos de praças e até mesmo de pontos de ônibus são “equipados” com descansos de braços (para impedir que alguém se deite no local) e não é raro que moradores e comerciantes expulsem os sem-teto dos arredores – às vezes, com jatos d’água.

A cidade possui 117 equipamentos – são os chamados centros de acolhida; 14 deles foram improvisados na última fria que chegou a São Paulo. No total, são 24 mil vagas, número que é ampliado pela oferta de abrigo em albergues e abrigos mantidos por ONGs, igrejas, etc.

A imensa maioria recebe os sem-teto apenas durante a noite. É feita uma triagem e, de acordo com a capacidade do equipamento, são acolhidos os primeiros da fila, até que o número de vagas, equivalente ao número de leitos, se esgote.

Os moradores de rua tomam banho, recebem uma refeição (sanduíche ou sopa) e pernoitam no local. Pela manhã, eles tomam café da manhã e são dispensados. No final de mais um dia, é preciso enfrentar a fila mais uma vez.

Dos 117 abrigos e albergues oficiais, apenas nove contam com canis para acolher os cachorros que acompanham os moradores de rua. Ainda de acordo com a reportagem do UOL, os locais não são adequados.

Moradores de rua não aceitam ir para abrigos sem seus cachorros: 'Não vou abandonar'

Os canis são instalados na área externa, apenas gradeados e cobertos com telhas. Os espaços não garantem proteção térmica e, em caso de chuvas fortes, os cachorros abrigados ficam encharcados, uma vez que não há proteção nas laterais. Eles recebem ração e água fresca. Apenas um abrigo da cidade oferece acolhimento para gatos.

Os sem-teto não podem ser admitidos nos dormitórios com os seus cães – este é mais um motivo de muitas reclamações. Muitos moradores de rua dormem com os cachorros – além do gesto de carinho, esta é uma estratégia para que ambos consigam se aquecer.

Os cachorros abrigados ficam todos juntos em um mesmo local, independentemente do porte e do temperamento. As brigas são raras – durante o “incêndio na floresta”, os animais tendem a ser menos agressivos –, mas os animais ficam assustados e estressados, sem entender o que está acontecendo, até a manhã seguinte, quando o tutor finalmente reaparece.

Depoimentos

A reportagem do UOL colheu depoimentos de moradores de rua que ajudam a entender a situação. O atendimento nos abrigos é apenas emergencial: encaminhamentos para serviços de atendimento psicossocial alcançam menos de 10% do total de acolhidos.

São raras as iniciativas com propostas de capacitação profissional ou de reforço dos laços familiares: os abrigos funcionam basicamente como dormitórios coletivos. Com a recusa da maior parte dos sem-teto, a prefeitura também distribui agasalhos, cobertores e colchões para quem prefere ficar na rua.

A distribuição de agasalhos, assim como a oferta de refeições, também é uma atividade comum a diversos grupos de apoio da cidade. Algumas igrejas, escolas, ONGs e até mesmo grupos de amigos tentam amenizar a situação. nos últimos anos, têm sido distribuídas barracas de acampamento, o que melhorou um pouco as condições de vida dos sem-teto.

Um dos entrevistados pela reportagem resumiu a situação: “Faça chuva, faça sol, quem está comigo é o Scooby [o cão que o acompanha]. Não dá para abandonar ele desse jeito. A prefeitura não trata a gente como ser humano”, disse Laudisnei de Sousa, que dorme nas ruas há dois anos.

Algumas denúncias afirmam que os moradores em situação de rua que não aceitam ir para os abrigos precisam assinar um documento isentando de responsabilidade os agentes da prefeitura – e o próprio poder municipal. De acordo com o Código Civil Brasileiro, o documento não tem valor legal.

O padre Júlio Lancelotti, da Pastoral do Povo da Rua, disse que a maioria das recusas está relacionada “à distância da vaga e à impossibilidade de levar o animal de estimação”. O sacerdote católico disse ao UOL:

“Já falei com pessoas da própria prefeitura e perguntei para elas: se o condomínio em que moram implantasse um canil, elas deixariam os cachorros lá? Todas disseram que não. Então, por que o morador de rua tem que deixar?”

A Secretaria de Desenvolvimento Social informou, através de nota, que “dará início a um serviço de transporte de animais para moradores em situação de rua”. O serviço será feito em gaiolas de transporte instaladas em veículos oficiais.

No entanto, o serviço ainda não está em funcionamento. A secretaria disse apenas que “n

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